Nos bastidores do Deicide
Nos bastidores do Deicide – Lions Clube Taguatinga- 16.01.2010
Por: Gilmar Santos – ARD
Uma coisa é ser da equipe de roadies de uma banda gringa, outra coisa é organizar o palco para que tudo dê certo e foi para isso que fui chamado. Cheguei cedo, para conhecer a galera da técnica, a RPS que mandou muitíssimo bem. Parabenizo aqui o trabalho da moçada, que fez até uma decoração, que seria usada especialmente no auge do evento, quando o Deicide entrasse em cena. Expectativas à parte, minha taxa de adrenalina estava em alta, pois todos comentavam o quando Glen Benton seria chato, frio, exigente e blá, blá blá..mas no final do evento, depois de ter servido aos senhores do Death Metal, posso garantir que é tudo bobagem inventada pela mídia, ou os caras amadurecem tanto que isso ficou no passado. Já vi muitas bandas locais (e olha que nem sou roadie, estou brincando de coordenar palcos) serem mais chatas e mais posers do que os caras. Extremamente educados, gentis e preocupados em se fazer entender em suas necessidades no palco. O motorista da van que ia levar os caras do hotel para Taguatinga perdeu-se no caminho e sem crédito no celular (acreditem, pois é a pura verdade!), voltou ao hotel (Glen perdeu a paciência), cheguei a pensar que o show dos caras seria cancelado por isso, pois as coisas estavam redondinhas demais para darem certo…então tivemos que enviar uma escolta, para buscar os caras, resultando em um atraso de 2 horas para o inicio e ao chegarem o motorista conseguiu perder-se no estacionamento do Lions Clube, então deu para perceber o estresse que a banda estava passando desde o aeroporto. A passagem de som foi tranquilíssima, Hudson Hells (Galinha Preta, Moretools) gastou todo o seu inglês e mandou muitíssimo bem, ao atender as necessidades de Jack Owen e Kevin Querion nas guitarras durante o soundcheck. Perguntei à Jack Owen sobre suas impressões em relação à tour, ele gentilmente me disse que tava muito feliz, pois acabavam de fazer um show lotado na argentina, porém concluímos que no Chile o público é mais insano e ele confirmou que a coisa lá foi bem divertida em todos os aspectos. Depois conversando com Kevin Querion, fiquei sabendo que eles vieram direto da Argentina para o Brasil, e depois de horas de vôo e escalas e mais escalas, chegam em Brasília e se perdem na vinda para Taguatinga, ele falou que foi muito foda de engraçada aquela situação, mas que estava feliz porque finalmente iam passar o som e tinha uma boa expectativa para o que iria mais tarde no encerramento do show. Quando Steve achou que estava pronto para iniciar a passagem, o cabeçote Marshall reservado especialmente para o Deicide queima todos os componentes, na verdade o amplificador fritou tanto que cheirou forte. Rapidamente Hells e os caras da técnica trataram de substituir, mas o outro cabeçote sequer ligava. Resultado: fizeram a passagem e o show com um cabeçote Meteoro que respondeu “divinamente” bem no show dos anticristos.. não é estranho isso? Sávio Américo (Bruto) ficou como roadie do batera, homem das pizzas e do papel higiênico, comprado às pressas quando Glen disse que precisava ir ao banheiro e teve que esperar pela volta de Sávio com o bendito rolo branco. Voltando à passagem de som, Glen ficou tão à vontade que nem precisou de ajuda com seu baixo e assim meu trabalho de coordenação estava garantido e “na marca”. A fala mais forte dele foi: – por favor, podem tentar aumentar o volumes das guitarras no side e minha voz no monitor da frente? Depois disso, só voltou à dirigir a palavra aos técnicos de palco, quando disse: acho que deu certo, por mim ta tudo certo pra gente tocar. A passagem de som gastou menos de meia hora, depois liberaram o palco tranquilamente para que a primeira banda assumisse seu lugar. O set da bandaNecropsy Room foi curtíssimo, durando apenas 20 minutos e a banda Hiddeninflesh tocou tranquilamente em meia hora de extremo metal, não antes de comentar sobre a felicidade de tocarem em um palco tão perfeito e de ambientação sonora animalesca. Exigências dos mestres do Extreme Metal: lanchinho básico, água, cerva, redbull e toalhas (nada demais, apenas 10 toalhas, considerando o calor infernal do lugar eu pediria umas 100..hehehe… e acompanhadas por virgens para me enxugarem o suor..rsrsrs). Deicide decidiu ficar no camarim e esperar pelas bandas de abertura ao invés de voltar para o hotel tirar onda e descansar (outro mito derrubado). Exceto Glen e o Batera, os guitarristas assistiram do palco as apresentações das duas bandas, com suas cervejinhas à mão e fumando seus cigarros (isso mesmo!! cigarros). Nesse momento, aproveitei a presença do broder Vagner Preto (fotógrafo incansável de nossas gigs mais toscas!!!) e pedi a ele que tirasse uma foto minha com os caras (Jack e Kevin), fazendo a tradicional mão de chifre. Ambos agradeceram pela foto…ahahaha.. é muito estranho quando a educação fala mais alto. Deicide subiu ao palco exatamente às 23:30 e detonou um set de uma hora e meia, sem tempo para discursos. Furiosos e extremamente certeiros, não deixaram uma brecha para que a platéia enlouquecida pudesse respirar. Aliás, vale comentar que nunca vi uma platéia tão furiosa, tivemos que fazer uma parede de seguranças entre a grade e o palco, que mesmo assim, ainda foi invadido por alguns loucões, que tivemos que literalmente arrastar e tentar acalmar o acesso de paixão pela banda. Uma curiosidade, disseram que o guitarrista Kevin Querion, tirou aquele set completo em uma semana antes do início do tour e sabemos que as musicas são muito difíceis de serem executadas, ainda mais naquela precisão de navalha que os caras dão ao vivo, velocidade extrema. O vocal de Glen é aquilo mesmo, sem uso de efeitos, gutural ao máximo, backing vocal preciso de Jack e a batera de Steve Asheim, merece um livro inteiro para definir as qualidades na execução de cada trecho da obra sangrenta dessa banda extrema. Tomaram muita água e cerveja no palco (só os guitaristas). No final do set, cada um deixou uma lembrança para os fãs, jogando suas palhetas, baquetas, até eu joguei algumas toalhas usadas para os fãs mais ardorosos. Disseram “ thank you folks!!” e sumiram no camarim! A galera ficou enlouquecida gritando Deicide por uns 10 minutos, fui até o camarim e perguntei: acabou o show???. Glen fez um gesto passando a mão no pescoço imitando um corte e disse: yeah man, we’ve played too much! It´s finished. !! voltei e anunciei – “Boa noite, vão pra suas casas, os caras não aguentam mais tocar. Obrigado e boa noite!”. Depois me informaram que iam precisar de uns 15 minutos e depois atenderiam alguns fãs para fotos e autógrafos. Fim de evento.. Totalmente perfeito, casa cheia, sem brigas, sem demônios baixando, sem nada quebrado, todos felizes nessa noite que promete repetir-se durante 2010. Viva o Metal Extremo, viva o Rock, viva principalmente a união da galera que soube respeitar o espaço e curtir em paz todo o evento. Parabéns ao Kbça pela coragem de investir pesado no evento e também por confiar em me convidar para coordenar o palco deste grande evento.



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