Sobre cozinheiros e jornalistas

punkitoEltinho é meu amigo desde a adolescência. Éramos punx e mal encarados. Eltinho tinha cabelo moicano, tomava cachaça no gargalo, cuspia e escarrava em tudo e em todos. Nos acampamentos em que íamos, Eltinho e eu gostávamos de cozinhar: macarrão com sardinha, feijoada de latinha, cream cracker com feijão, linguicinha frita; gororobas.

Na semana passada encontrei o velho amigo em um show. Tem três filhos, é casado, está com uma cara corada e um aspecto saudável. Tomava scotch. Disse-me que é o chef (executivo) de cozinha do Hotel Nacional, um dos mais tradicionais de Brasília. Eltinho frequentou escolas para aperfeiçoar o seu ofício, que ele define como arte. Mas não foi escola alguma que o levou ao metier, foi o seu interesse, a oportunidade e o “jeito para a coisa”. Ele me disse que tem um monte de filhinho de papai fazendo excelentes cursos mundo afora e que jamais serão grandes cozinheiros.
Eu, que à época do punkismo andava andrajoso, vociferante, irascível, antimoda, antimédia, antimedo, antígona, disse ao amigo que sou escritor e roterista e que depois de uma competente carreira como publicitário me tornei secretário de comunicação. E disse que igualmente não foi a faculdade que me levou à publicidade; no curso de jornalismo, na UnB, eu já acreditava que não deveria existir curso de publicidade em universidade federal, e ainda acredito. Eu e Eltinho entramos para nossas atuais profissões por amor a elas, por senso de oportunidade e por sermos capazes para tais ofícios. Nas nossas profissões, os grandes profissionais não se importam com diplomas.
Ontem o STF decidiu pela não obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Acho correto e louvável. Na maioira dos países do mundo é assim. A FENAJ ficou furiosa. E eu fiquei desconfiado dessa fúria. A lei não proíbe que faculdades ensinem jornalismo e formem jornalistas, a lei não proíbe os jornais de contratarem jornalistas formados em faculdades. O que houve foi a extinção da lei que exigia o diploma para exercer o ofício. Ora, não muda quase nada. Volta-se ao tempo em que as redações tinham jornalistas que escreviam extremamente bem e que não tinham formação em jornalismo. Os juízes, ao seguirem o voto do relator Gilmar Mendes, apenas garantiram o direito de qualquer sujeito poder exercer a profissão, desde que tenha competência para tal. O mesmo direito que têm os cozinheiros, roteiristas, escritores e publicitários.
Quem sabe eu e Eltinho nos encontremos novamente algum dia e encontremos um outro antigo amigo punk exercendo com maestria a profissão de jornalista, mesmo que tenha se formado em música.

Sobre o Autor

Amarildo

OsubversivO [Do lat. subversus, part. pass. de subvertere, ‘subverter’, + -ivo.] Adjetivo. Substantivo masculino. 1.V. subversor. 2.Que ou aquele que pretende destruir ou transformar a ordem política, social e econômica estabelecida; revolucionário.

Uma Resposta para “Sobre cozinheiros e jornalistas”

  1. É verdade. Músicos escrevem sobre música, cientistas escrevem sobre ciencia. O curso de jornalismo deveria ser uma especialização e não uma graduação.

Deixe uma Resposta