Entrevista Os Cabeloduro parte 01

 OS CABELODURO é uma das melhores bandas surgidas nos anos 90, seu Punk Rock energetico e suas letras acidas, foram a combinação perfeita pra colocar a banda no topo. Acompanhe uma coversa franca com Hélio Gazu, baixista dos Cabeloduro sobre os 20 anos da banda. Essa entrevista foi dividida em duas partes. Segue a primeira
os cabeloduro 

 Ae Gazu seja bem-vindo ao OsubversivO zine.20 anos se passaram desde a criação da banda, você como membro fundador, qual balanço faria da carreira dos Cabeloduro? Ascensão e queda.
  R: Em primeiro lugar gostaria de agradecer a oportunidade dos Cabeloduro expressar suas idéias e contar um pouco da nossa historia. Bom, são 20 anos de trabalho serio e de muita guerra com a cena local. Nos dos Cabeloduro sempre nos colocamos na posição de uma banda do Distrito Federal, fugindo um pouco do rótulo de banda de Brasília que sempre excluía vários artistas por não morar mo Plano Piloto. Parece discurso panfletário, mas demorou cerca de quatro anos para o nosso primeiro show acontecer no Plano Piloto, onde já existia uma cena diferente nas satélites e no entorno. Depois do nosso primeiro show no Projeto Meia Sola, lembra? As coisas começaram a mudar… Primeiro criamos nossa base com a garotada das satélites e quando acontecia o nosso show, era uma grande invasão nos espaços que existiam na época. O Teatro Garagem foi termômetro dessa geração! Ate hoje nos borderôs do Teatro os maiores públicos de rock foram dos cabeloduro. Outros projetos foram super importantes para Democratizar o Rock na Cidade, tais como: Feira de Musica, projeto Meia Sola e a Radio Cultura que abraçou várias bandas da cidade. Nunca houve ascensão ou queda, sempre corremos por fora, as margem do que estavam produzindo ou fomentando na cidade. Tiveram que nos engolir porque a banda arrastava uma Legião Suburbana para os nossos shows. Muita banda tinha medo de dividir o palco com a gente… Passávamos o trator e ninguém segurava a gente! Tudo que os Cabeloduro conquistaram foi no trabalho e muito suor. Algumas pessoas foram super importantes na nossa carreira: Luciano Lima (1º produtor da banda), Erick (patrocinou nossa 1ª Demo), Ricardo Retz, o Ceará do antigo Estúdio Jams. Outras apenas nos criticavam e nos rotulavam com os marginais do GUARÁ. Posso afirmar que a banda não se excluía, apenas tínhamos uma maneira diferente de pensar e agir, pois somos frutos do movimento Punk dos anos 80. E muito difícil ser você mesmo e manter uma atitude onde vários interesses estão em jogo, sempre fomos honestos na nossa proposta musical, e por isso, conquistamos vários fãs pelo Brasil afora, sem fazer caras e bocas ou babar o ovo de ninguém… Se o Diabo e o pai do rock eu não sei! Mas já passamos por coisas que ate ele duvidaria…

 Lembro-me com se fosse hoje a repercussão entre a galera da cena quando saiu o primeiro registro em demo da banda. Estava à venda na Head Collection (antiga loja de Rock no conic). Sempre que ia lá nunca conseguia comprar a fita porque acabava muito rápido, e o jeito de conseguir uma, foi reproduzir a fita de amigos, e esse passa e repassa, acabou por ajudar vocês em popularidade. O que você poderia nos falar sobre a idéia de gravar a demo, a escolha das músicas, do estúdio? Que lembranças você traz dessa primeira vez dos Cabelo?

 R: Gravamos 13 musicas ao vivo em duas horas… Todas as músicas já eram conhecidas e facilitou o sucesso na distribuição e venda da Demo tape. Distribuímos cerca de 5.000 fitas por todo o Brasil. Em Brasília chegamos a vender mais de 2.500 fitas no Conic. Lembro que o Fábio Massari (ex MTV) quis premiar a gente com a DEMOTAPE de OURO. Os Cabeloduro era uma banda grande sem um disco e tocando nos principais festivais no Brasil pela repercussão e distribuição da Demo. Mandamos para todos os fanzine e Revistas Especializadas da época. A Rock Brigade fez uma critica negativa sobre a demo, não me lembro o nome do cara que falou sobre a banda… No mês seguinte, não parava de chegar carta na casa do Beto. Todo mundo queria conhecer ou receber a nossa Demo em todo o Brasil. Visitei quase todos os festivais com as Demos de baixo do braço, fazendo a divulgação, pois não existia internet, era tudo no canetão e no correio. Nosso primeiro show fora de Brasília foi graças a nossa Demo tape que chegou às mãos do J.R (92 Graus em Curitiba), ele me disse que quando recebeu a fita e abriu a caixa do sedex, tinha um pentelho junto com a Demo. O cara pirou! Foi um show depois de 24h00 de viagem para 03 pessoas… rsrsrsrs! A Head Collection foi um ponto de partida para varias banda do DF, o carro chefe era os Cabeloduro, o Geraldo me ligava e dizia: – Gazu acabou! Você tinha que reproduzir as fitas uma a uma, isso durava horas… Todo mundo participava, uns tiravam xerox no trampo da capinha outro comprava as fitas no Fujioka, era produção em serie… Por isso eu dou valor nas bandas das antigas, era tudo muito difícil e os custos eram enormes. A nossa fitinha já nos rendeu boas farras e nos livrou de muita fome por esse Brasilzão.

 Por falar no conicão, hoje lugar de ninguém, não que naquela época tivesse algum dono. Mas desde a inauguração da Devil Discos a primeira loja de Rock do conic.A galera que freqüentava, além das primas, eram em sua maioria punks e metaleiros. Depois da Devil foram chegando os estúdios de tatuagem, de ensaio tipo o caustico lunar, e outras lojas de Rock, Subway, Berlin e a Head Collection, hoje não vejo mais o conic como um centro underground, mais parece um grande shopping dos descolados e afins…

 R: O Gilmar (ARD) e um guerreiro. Eu peço bênção pro cara! Como a cena local pode ser tão hipócrita ao ponto de esquecer tal figura. Eu pentelhava o Gilmar no Conic, na hora do almoço, dividia o meu tempo de office-boy do BRB entre o Cine Ritz e a Devil Discos… Quem começou o lado B do Conic foi o Gilmar… Depois outros chegaram e estão ate hoje. Ensaiávamos no Caustico Lunar, antes dos Cabeloduro… Que doidera! Na verdade o ponto de referencia era o Cine Centro São Francisco (antigo Janjão)… O Rock perdeu força e espaço e as lojas foram fechando, pois os mesmo não se adequaram as novas tendências… Hoje só existe a Berlin no seguimento do rock’n’roll. Raramente passo pelo Conic. Existe uma proposta de revitalização do espaço… Mas só fica no papel! De certa forma hoje a cultura underground respira no Conic…

 Os cabeloduro participaram de 2 coletâneas lançadas em Portugal, “Vozes da Raiva” e “Um Xute na Oreia”, você se lembra da repercussão dessas coletâneas lá fora? Receberam muitas cartas ou convites pra tocar por lá?

Um chute na oeia R: A coletânea foi fruto da divulgação da Demo e do nosso antigo baixista Hamilton Pernão que mora em Portugal até hoje. Ele levou nosso trabalho e apresentou pra uma galera da cena local. Depois as coisas foram acontecendo tudo ao seu devido tempo. Participamos da coletânea com outras bandas portuguesas antes do primeiro disco sair (Com todo amor e carinho), o nosso som era diferente por isso chamou a atenção dos portugas… Recebemos varias cartas do mundo inteiro na época, pois a distribuição aconteceu em toda Europa. Aqui no Brasil a repercussão foi bem legal, lembro que um grande jornal de São Paulo fez uma matéria muito grande sobre os Cabeloduro e o CD lançado fora. Alguns amigos viajando pela Europa se depararam com algumas historias maluca com os Cabeloduro pelo mundo. Certa vez o nosso ex-baixista estava num festival de verão na Espanha quando der repente ouviu a musica pinga com limão num carro parado onde algumas pessoais estavam pogando, ele se aproximou e disse que conhecia a banda e que era do Brasil e que tinha tocando com a gente… Os caras fizeram uma festa enorme, pois eram fãs da banda e não acreditavam no que estava acontecendo. Eles são muitos antenados na nossa cena e musica Brasileira. Não são burros e dão muito valor no que acontece por aqui.

 O primeiro disco, “Com todo amor e carinho”, de 96 é um clássico do Punk Rock nacional, até hoje todas as músicas desse disco são cantadas em coro pelos mais velhos e pela nova geração também. De quem são as letras e quais músicas não pode faltar em um show de vocês? 

 com todo amor e carinhoR: Tudo foi composto em parceria com a banda e alguns amigos como o Bolão… Pinga com limão a gente já tocava em outra banda antes dos Cabeloduro… De 1989 a 1993, a banda só tocava 03 musicas (pinga com limão, foda-se e uma instrumental). Lembro que a gente tocava por cerveja no Bar do Lincon no Guará, tocávamos as mesmas musicas 100 vezes ate enjoar… Não tínhamos instrumentos e nem local para ensaiar! Depois fizemos um show juntos com os Raimundos e ficamos proibidos de tocar no Guará, depois dessa experiência começamos a levar a banda mais a serio… Fizemos da casa do Daniel nosso QG e preparamos algumas musicas que fizeram parte do 1º CD. E difícil fazer um set list do primeiro Cd, todas as musicas são boas, nos últimos shows tocamos todas…

 Depois da excelente repercussão do disco de estréia, veio o segundo disco “1#EP” e quando todos pensavam que Os Cabelo Duro fosse se entregar a alguma gravadora ou se “venderia” como se falava na época, no entanto a banda voltou com a mesma fúria de sempre, com a velha atitude Punk Rock. O disco saiu por um selo independente. Mas não obteve a mesma repercussão do anterior. Vocês receberam muitas propostas de selos Majors?         Que análise você faria entre os 2 primeiros discos?

 R: “COM TODO AMOR E CARINHO” está entre os 10 melhores CDS no estilo nos anos 90, um disco difícil de encontrar… Achei o CD na Galeria do Rock em São Paulo por R$ 50,00… Ele tem um valor histórico e poderia ter vendido muito na época. São dois CDs completamentes diferentes, com propostas diferentes, porém o mesmo não teve tanta popularidade quanto o primeiro. Recebemos uma proposta da Tamborete Records depois de um show que fizemos no Rio de Janeiro, o CD foi feito na correria e o resultado não foi tão bom quando o primeiro ficou um trabalho meio obscuro, mais era Cabeloduro do mesmo jeito. Lembro que pregaram uma matéria sobre as banda que poderiam gravar com a Sony, na porta da Head Collection, gerou vários comentários sobre os Cabeloduro, não recebemos nenhuma proposta de verdade das Major, tudo foi especulação e muita fofoca. Não vejo problemas em você crescer com o seu trabalho, hoje o mercado alternativo ganhou força com a internet, antes não era assim. Algum tempo depois o Rafael Ramos me ligou (ex-tamborete, hoje Deck Discos), estava à procura de uma banda que tinha o perfil dos Misfts e a pegada dos Cabeloduro, precisávamos produzir quatro musicas para uma audição… Não gerou! Logo depois apareceu o Cpm 22. Entendeu? Perdemos algumas oportunidades, mais agarramos outras bem melhores… Graças ao nosso trabalho tivemos a oportunidades de abrir vários shows memoráveis e grandes festivais, tais como: Dead kennedys, Planet Hemp, Shelter, Tsol, Agente Orange, Ratos de Porão e etc…

 Os Cabeloduro também possuem um mascote que saiu em todas as capas dos discos da banda. Quem criou o mascote? Tem nome o dito cujo?

 R: A criação foi do Túlio do DFC… Ficou uma marca da banda! Batizamos com o nome de Francisco em homenagem ao nos falecido amigo Chiquinho, que era uma espécie de Guru muito doido e aprendiz de roadie e botafoguense fanático!

 Semana que vem tem mais

Sobre o Autor

Amarildo

OsubversivO [Do lat. subversus, part. pass. de subvertere, ‘subverter’, + -ivo.] Adjetivo. Substantivo masculino. 1.V. subversor. 2.Que ou aquele que pretende destruir ou transformar a ordem política, social e econômica estabelecida; revolucionário.

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