Os Cabeloduro entrevista parte 02
Os anos 2000 começaram com mudanças profundas na banda, caso eu esteja errado me corrija, mas lembro que nesta época antes da saída do podrinho, a banda estava prestes a entrar em estúdio pra gravar um novo cd. Inclusive vocês tinham um contrato com o selo paulista Ataque Frontal. O que motivou a saída do podrinho naquela época? Chegaram a pensar em encerrar as atividades?
R: Recebemos a proposta depois da abertura do show dos Dead Kennedys… Voltamos para Brasília para nos organizar e produzir o novo CD. Não houve um contrato no papel, o Renato nos adiantou uma pequena parte para uma pre-produção… Depois a banda entrou em atrito por vários motivos, já estávamos na estrada há quase sete anos tocando em toda parte, acho que o desgaste emocional contribuiu para que algumas coisas acontecessem, por isso, não continuamos com a produção do CD… Uma banda de rock é um casamento sem sexo! O profissional não pode misturar com a amizade… Eu posso falar por mim. Fiquei seis anos sem falar com o Beto. Todos cometem erros, o nosso foi a falta de dialogo. Estávamos cansados na verdade, trabalhando muito e recebendo pouco. Muita gente só queria tirar dos Cabeloduro, ninguém aparecia para agregar ou contribuir de forma positiva. Abandonamos tudo, estudo, trabalho, namoradas, família, cachorro e corremos atrás do nosso sonho que estava virando um pesadelo. Acho que foi importante essa transição, pois amadurecemos e hoje conseguimos analisar as coisas bem diferentes. Um velho amigo disse aos Cabeloduro: Vocês não vão acontecer, sabe por quê? O Brasil não esta preparado, vocês estão um passo a frente, por isso não funciona. Será? Nunca procuramos o mainstream, e sim o sucesso e a realização pessoal. Sobre a saída do Beto, esta pergunta deve ser feita para a ele… Para seguirmos em frente precisamos entender o passado e principalmente os erros cometidos, porem, nossa vontade sempre foi continuar as atividades, pois esta no sangue. E tem coisas que ninguém explica!
As mudanças na banda continuam, passam a se chamar apenas Cabeloduro, depois veio a noticia que o Marcelo (Maskavo Roots) assumiria os vocais. O que provocou estranheza por parte dos antigos fãs, com essa formação em 2005 é lançado o disco “Tudo que a gente tem”. Um disco que imagino teve tudo que os anteriores não tiveram, ou seja, uma produção mais bem cuidada, uma distribuição mais abrangente através da Unimar music. Como foi o processo de concepção desse disco e a recepção das criticas e dos fãs?
R: Perdemos muito com a saída do Beto, e ganhamos muito com o Marcelo. São duas escolas diferentes com as mesmas influencias. O Marcelo estava perdido em Curitiba, sempre que viajávamos em tour para o Sul, o Marcelo estava com a gente, alem de ser um velho amigo do Guará. Com a saída do Beto, pensamos em vários nomes, ensaiamos com o Telo, recebemos alguns e-mails de gente de fora de Brasília querendo entrar na banda. Queríamos na verdade tocar e fazer um disco diferente e bom, quem fosse que estivesse nos vocais. Muitas das musicas neste disco eram antigas e ganharam uma roupagem nova (Trepar, Vítimas da Exploração e Punk Rock do Mal). Começamos a trabalhar nas musicas em 2002, gravamos uma Demo tape, e mandamos pro Marcelo, pois não poderíamos desprezar o seu potencial vocal. Eu, Daniel e Ralph, ensaiávamos quase todos os dias, tínhamos varias composições desde 1998 dariam para fazer vários CDs. Vou tentar resumiu esta historia. Em 2003 o Marcelo veio para Brasília onde compomos a primeira parte do CD. Em 2004 recebemos uma proposta bem legal, onde o Biu (ex-Rumbora) e o Nelson eram sócios em São Paulo do Minimax Estúdio. Fomos para São Paulo onde fizemos uma produção e gravação do CD. Tivemos tudo do bom e do melhor no estúdio, tudo novinho! Depois apresentamos um Demo tape para o Cesar da Unimar, onde ele nos pediu um plano de Marketing para lançar o CD, e sugeriu que a banda mantivesse o mesmo nome. O Alf do Rumbora também nos ajudou muito com a Unimar. Lançamos o CD no Porão do Rock 2004 e mudamos para SP, onde esta é outra historia. Sou suspeito para falar sobre o ultimo CD, trabalhamos pra caramba para realização do mesmo, fizemos tudo ao nosso alcance. Nem Jesus Cristo agradou a todos, era obvio que o novo CD causaria estranheza aos fãs antigos. Recebemos varias criticas positivas da imprensa especializada, e ao vivo a pegada continuava a mesma com o Marcelo nos vocais. A pior critica não são as dos fãs, pois elas são honestas, são daqueles que se dizem amigos e fazem uma comparação ridícula entre as pessoas, e não ao disco. Ganhamos novos fãs? Desagradamos os fãs antigos? Quantos? Por que mudar de nome? Vamos lançar um novo CD? Na verdade só queremos olhar para frente e recuperar o tempo perdido com o Beto.
No site que vocês mantêm na Trama Virtual tem um disco ao vivo em comemoração aos 15 anos da banda, mas não encontrei nenhuma informação a mais sobre ele? É um disco virtual apenas? Onde ele foi gravado?
R: Nem um nem outro! O que estava disponível era uma gravação do Porão do Rock de 2004. Esta gravação não representa nada comemorativo da banda… Coloquei por engano um desenho que o Túlio vez para este projeto de 15 anos que ficou no papel. Quem baixou, baixou!
Gazú você como membro, por assim dizer da velha guarda da cena punk de Brasília, qual é sua visão da atual cena? As bandas, zines, shows, os produtores. Tem algo que valha a pena destacar?
R: Pra falar a verdade, não acompanho nada sobre a atual cena. Prefiro não falar sobre isso, gosto de encontrar a galera das antigas e tomar uma cerva. Tudo é um ciclo! O meu tempo já passo e ficaram as boas lembranças…
Vocês tocaram na edição do Porão 2009, a produção não costuma pagar cachê pras bandas da cidade, dizem que as bandas já ganham uma vitrine só em tocar no festival, porém se minha memória não estiver errada não me lembro de nenhuma banda que tenha ganhado projeção só por ter tocado em alguma edição do Porão?Reconheço a importância do festival, mas estranho o método de escolha de bandas “convidadas” que são figuras repetidas. Palco pequeno, palco grande, seletiva, todo esse processo não tem a transparência necessária. Qual sua opinião sobre a importância do festival pra cena de Brasília?
R: Em 1999 nos convidaram para tocar, só que estávamos em Salvador fechando um festival no Teatro Castro Alves. Em 2000, tivemos que mandar material para seletiva e depois de varias especulações confirmou o nosso nome no evento. Porra! Estávamos no auge, tocando em todos os festivais pelo Brasil, em casa, fizeram maior cu doce pra gente tocar… Não vou entrar no mérito da política de seleção do festival, este ano tocamos novamente graças ao Luciano Lima, uma mão lava a outra, entende? Acho que o festival é muito importante para Brasília, pois só existe ele nesse formato, onde poucas bandas possam mostrar seu trabalho. Porém nem tudo são flores, e grandes partes da mídia se concentram nas grandes bandas e as pequenas só servem pra encher lingüiça.
Uma coisa é certa Os Cabeloduro foram a banda mais popular na cena punk de Brasília nos anos 90, mesmo a mídia da época querendo nos empurrar bandas como Litle quail e Raimundos que cá entre nós, nunca tiveram um fio de cabelo duro na cena punk. Por quê? Em sua opinião porque os cabeloduro não decolou como as outras acima? Seriam um dos fatores as letras da banda, punks demais pras gravadoras? Ou por a banda não se vender.
R: Os Cabeloduro fizeram o que muita banda nunca teve coragem de fazer. Tocar nas satélites! Hoje eu vejo algumas bandas fazendo o mesmo caminho para ganhar o respeito da periferia. Ultrapassamos a fronteira do movimento punk e começamos a tocar para vários públicos em diversos eventos. Respeito às duas bandas acima citadas, mas cada macaco no seu galho… O que faz pensar não vende! Acho que a gente assustava o mercado… Como trabalhar uma banda que mandava todo mundo se fuder? Rsrsrrsrsrs………….
Tive a oportunidade de ver um dos melhores shows esse ano, 3 gerações da cena punk juntas em um lugar marcante pra muita gente. As bandas ARD, OS CABELODURO e GALINHA PRETA o lugar Sesc 913. Ver a (RE) volta dos cabelo com a formação CRASSICA foi um verdadeiro revival. Depois de tanto tempo sem tocar juntos a química funcionou bem entre vocês neste show, vi galera das antigas e os mais novos cantando em coro e verso todas as músicas. Que alias se pautaram só no primeiro disco e nada do novo.
R: Foi muito bom… Acho que a galera quer ouvir as das antigas, pois não existe nada de novo na cena. Falta uma banda que coloca o dedo na cara e diz o que pensa. Isso a gente sempre fez muito bem. Acho que as musicas do 1º CD são atuais e ainda tocam a molecada.
Obrigado pela entrevista. E por ultimo Gazú o que o presente reserva pra banda? Volta definitiva? Shows esporádicos? Um disco novo talvez? Sei que no caso de vocês, quanto mais descompromissada a banda estiver, mais simples e empolgante o som fica.
R: Faço da suas palavras as minhas. Não vamos planejar nada. O que aparecer de bom a gente desfruta. Gostaria de agradecer a todos os fãs que sempre nos respeitaram, e aos grandes amigos que nos apoiaram nos momentos mais críticos. Hoje eu vejo com clareza algumas coisas e por isso o anonimato não subiu a cabeça. Espero que respeitem a nossa historia que foi escrita com muito trabalho. Abraços à todos!




![Krig -: Human Mission: Destroy [2009]](http://www.osubversivozine.com/wp-content/uploads/2010/01/a1-150x150.jpg)

Bandas como Os Cabelo Duro, A.R.D, D.F.C Wernon Walters, Detrito Federal, são os pilares do Punk Hard-Core candango. Sem eles, os shows dos anos 1990 (e final dos 80) naõ teriam sido tão divertidos!!!!